05 5 / 2012

Fred W. McDarrah

Chego em casa, e em cima do criado-mudo tem a foto dela. Seus olhos sempre foram assim: rastreiam qualquer verdade que eu queira omitir; qualquer argumento que eu possa querer desfiar…

Ao lado, tem também uma folha que deixou de ser branca em prol de receber estas palavras:

Minha vida emocional: dialética entre aspirar à privacidade e precisar submergir num relacionamento apaixonado com um outro. Nota - com Philip eu não tive nem uma coisa nem outra, nem privacidade nem paixão. Nem a fortificação do ego que é conquistada apenas por meio da privacidade e da solidão, nem a esplêndida, heroica e bela perda do ego que acompanha a paixão." Lá no pé da página, quase imperceptível, está a assinatura dela, aquele imponente SS.

Ai, Susan! Não abandona a mania de esmiuçar todos os sentimentos até que eles evaporem na mente…Sempre ansiosa, volúvel, atropelada pelo fluxo dos próprios pensamentos.

Antes de ir embora, pego o papel e escrevo no seu verso:

Uma vez que você propõe dedicar-se diariamente a um exercício de autoanálise, sugiro que esteja preparada para surpreender-se com os lugares que conseguirá alcançar em seu coração. Sei que eu, pelo menos, me surpreendo, porque as suas verdades são um exagero…mas, de fato, admito também que você sempre acerta na proporção. Saiba, no entanto, que toda essa transparência tem o seu preço e as cobranças que você se faz também já custam demais. Lembre-se de percorrer o caminho de pé, e não arrastando-se…MP

Vou embora e as ideias repousam no papel - mas na mente elas se multiplicam. E eu me pergunto, agora já longe, “Aonde vamos chegar com isso?”.